
Já pegava gosto naquela reclusão do sítio. Me afeiçoei àquele nada-cresce. Sozinho a gente pensa melhor. No viver-viver dos bichos e no nada fazer me descobri como sou: Bicho homem. Grandes lições tirava daqueles que cagam enquanto comem, que na inteligenciazinha que Deus lhes deu assim fazem e o tempo sobeja mais pra viver. Que será que passa na cabeça dos bichos? Com isso não me aperreio muito, que me chateia mesmo é não saber que passa na cabeça de homem. Dá logo vontade de esmurrar algum vivente pra ver se fico a par do que o homem pensa. Queria saber o planejado da vida do infeliz, seus pecados, arrependimentos e amarguras. Será que gosta de ver o porco morrer? E nesse berrar se imagina sangrando um desafeto? Pensa na próxima colheita, na fartura? Qual será o motivo da vida da gente? Bem sei que cada um tem seu rumo e nunca é oque elas dizem, sempre outro. Será que sabem?
Ainda vivendo na terrinha antiga, Conheci um que se chamava Fadul. Sempre muito sisudo e trabalhador, lavorando de manhã à noite, sem dia santo ou feriado. Não ia à nossa igreja, é verdade, mas orava as tantas vezes no dia. Orava naquela sua língua de turco, cabeça no chão, apontando para Meca, sempre.
Dizia que era na sua enxada que faria os filhos doutores – monte deles, que junto da mulher eram a razão do seu viver. A pois, bem um tio meio distanciado morreu, deixando uma dinheirama sem fim pro Turco Fadul que logo largou mulher e filhos e caiu no mulherio de aluguel e nesses prazeres comprados, que o demo vende no atacado em qualquer canto, viveu sua vida, abreviada por uma briga de zona. Qual era mesmo a razão da vida dele? Será que se amarrasse o Fadul ainda enquanto pobre agricultor e açoitasse-o para arrancar o bom motivo de sua existência ele confessaria? Digo que nem ele sabia que sua alma pedia por prazeres de pecar.
É acertado que o homem tem necessidades que mulher própria da gente não satisfaz. Sei, oras. Já tive a minha. Será que se me batessem muito, torturassem eu confessaria os pecados vindouros? Falaria minha intenção na Midinha? - Midinha essa conheci na cidade.
Não gosto muito da cidade. Nunca gostei. Uma caceteação sem tamanho quando vinha o dia de comprar os mantimentos. Comprei logo tudo no armazém do Honório que era pra não ter que ficar rodando muito. Resolvi de jogar um truco, menos para relaxar do que para saber, com cautelas, onde encontrar uma boate. Por me faltar os jeitos de modos e gritos que o jogo do truco exige, e com aquela gritaria de seis, nove e doze, me rupiei e perguntei logo indiscretamente da mesa pro balcão. “- Honório, onde eu acho um bar de putinhas por aí? To carecido de uma mulherzinha” a mocinha que trabalhava ali ruborizou e saiu mansa. Mas ninguém nem não me importunou, e um finório Zé Alceu me deu a dica. Naquela hora da tarde, só Ana Cascuda. Deixei minhas compras ali, pegava na volta e fui rumo a tal Ana Cascuda.
Lugar feio e fedorento. Gente molamba e putas de certo arrenegadas em todos os outros cabarés. Faziam enorme algazarra entre os bêbados. Nem não fui apercebido no entrar, só me avistaram com o parar da gaita do cego, assustado com o estrondo de um infeliz que dormia na mesa caindo no chão no empurro meu. “Dorme aí que eu vou sentar”.Lugar de bêbedo dormir é em cadeira? No chão escarrado ficou bonito, como reclamasse, cuspi sobre os queixos e ele se aquietou.
Ana Cascuda logo veio, mais feia que qualquer uma das putas e cheia de dedos. Mandou o cego voltar à sanfona e me pôs uma cerveja de cortesia. Disse logo a ela que queria uma mulherzinha e escolhi a menos feia, que se apoiava no colo de um crioulo. Vi que ele não gostou. Levantasse, era tudo que eu queria. Não gostava de ver as fuças dele e com gosto fazia fogo no desinfeliz. Ana Cascuda, antes de qualquer coisa, arrazoou que os clientes novos têm preferência, e seria uma honra ter o tão ilustre Tatarana entre os clientes da casa. O negro cedeu, sem resmungo.
Já desentendi. Aquele apelido foi o chefe o primeiro e único a pronunciar, dito em pé de ouvido como foi, haveria alguém escutado? Algum viu o rastro da bala a ligar eu e o prefeito e à boca miúda espalhado? Que fosse. Tinha coisa mais precisada de urgente para resolver. Subi pro quarto com minha morena.
Com jeito mandei que desvestisse as roupas e com nojo possui-a. Depois da primeira o nojo me tomou conta, o cheiro me dava ojeriza e vendo o corpo, arrependimento. Não tinha como dar uma segunda. Mais nojo tive no sorriso de deboche, sorriso negro de dentes podres e faltantes em contraste com dentinho de ouro. Sorriso que desmanchei com uma fivelada da cinta. Ainda mal montado nas botas fui-me embora. A negra ali, sem entender, com as mãos duas no focinho lá ficou.
Voltei ao armazém do Honório pegar meus mantimentos já de noitinha, quase no fechar. Fui salvo pelo casalzinho retardatário que foi se arranchar tarde. Casal díspar. Ele já grisalho e meio careca e ela tão novinha e bonita. Dois meninos, meio crescidos e meio encapetados arrodeavam pedindo de um tudo. Seriam filhos?
Enrolei algum tempo, coloquei meus tarecos na caçamba da camioneta e indaguei o grisalho quando este saia com a carriola de mão abarrotada: “- pra onde vai, mano velho?”. Meia légua além do meu sítio não me faz trabalho, ia ajudar o sujeito. Nem foi companheirismo meu aí. Mesmo não desgostando de ver o alívio dele e o bom juízo que ele me fez, mas aí, no meu eu, vendo a mulherzinha dele ali, já tinha pecado e ele seria um meu inimigo. Ajeitei as compras, a carriola e o marido com as crianças na caçamba, que iam faceiros como fosse desfile de fanfarra, e eu faceiro com a mocinha ao meu lado, dentro do carro.
Não conseguia tino pra conversa, coisa que só mulher muito bonita sabe fazer na gente, um não raciocinar sem fala nem ação. Pude admirar as mãos miúdas sobre o colo perfeito. Um pouco mais abaixo, via-se pouca coisa por sobre o joelho, mas via pelo contorno do vestido que eram pernas bem torneadas, pernas compridas, pescoço comprido e fino e cabelo bem preto e comprido contrastando com sua pela alva de sorriso perfeito. O perfume era oque mais me agoniava. Não perfume, mas o cheiro natural de uma mulherzinha asseada, um cheiro doce e suave. Punha-me louco.
No não saber oque falar, perguntei o nome – Cleomilda – disse ela, logo emendando o que o nome do marido era Manoel e disse o dos filhos no mesmo fôlego, que por não estar prestando atenção, mão alembro mais. Vi que ela respirava forte, estaria assustada, estaria com medo ou excitada? Isso queria saber dos pensamentos dela, queria saber porque com homem tão medonho se casou. Aí vi que pensamento se tira é com cautela e artimanhas de conversa. Não adianta bater. Ainda mais em mulher bonita.
No descarregar das compras, sêo Manuel me ofereceu um café. Aceitei. “- Midinha, passa um café fresco pro amigo”. Midinha, repeti eu. Esse nome carinhoso caiu bem em minha boca. Tomei o café ouvindo o falar irritante do sujeito e a menina não mais vi. Fui-me embora pensando como me aproximar.
Essas cautelas, jogos de sedução é que me irritam. Não quero a menina a força, quero gostada de mim. Mas como? Se eu passo fogo no velho, ela não me olha mais. Imaginei aquele imundícia possuindo tão jovial e belo corpo. Me deu muita raiva. Fiz fogo e chuva de balas mandei a esmo. Nesta, um dos cabritinhos não escapou.
Olhando o bichinho morto, pensei: Talvez assado, como um agrado de bom vizinho.